m timo de vitela, tortas de pombo, maçãs
cozidas aromatizadas com canela e bolos de limão cobertos de
açúcar, mas Sansa já estava tão cheia que não conseguiu
comer mais que dois pequenos bolos de limão, por mais que os
adorasse. Perguntava a si mesma se poderia arriscar um
terceiro quando o rei começou a gritar.
O Rei Robert tornava-se mais ruidoso a cada prato. De vez
em quando, Sansa o ouvia rir ou rugir uma ordem por cima
da música e do tinir dos pratos e talheres, mas estava longe
demais para entender as palavras. Agora todos o ouviam,
- Não - trovejou, numa voz que abafava todas as outras
conversas.
Sansa ficou chocada ao ver o rei em pé, de rosto vermelho,
cambaleando, Tinha uma taça de vinho na mão e estava
bêbado como um gambá.
- A senhora não me diz o que fazer, mulher - gritou à Rainha
Cersei. - Sou eu aqui o rei, entende? Eu é que governo aqui, e
se digo que amanhã luto, luto mesmol
Toda a gente o olhava. Sansa viu Sor Barristan, o irmão do
rei, Renly, e o homem baixo que falara tão estranhamente
com ela e lhe tocara o cabelo, mas ninguém fez um
movimento para interferir. O rosto da rainha era uma
máscara, tão vazia de sangue que poderia ter sido esculpida
em neve. Ergueu-se da mesa, recolheu as saias e saiu em
silêncio, seguida por um bando de criados.
Jaime Lannister pousou a mão no ombro do rei, mas este o
empurrou com violência. O Regicida tropeçou e caiu. O rei
soltou uma gargalhada grosseira.
- O grande cavaleiro. Ainda posso atirá-lo ao chão. Lembre-se
disso, Regicida - bateu no peito com o cálice cravejado de
jóias, enchendo de vinho a túnica de cetim. - Dêem-me meu
martelo, e não há um homem no reino que me vença,
Jaime Lannister ergueu-se e sacudiu sua roupa.
- É como diz, Vossa Graça - sua voz estava rígida.
Lorde Renly adiantou-se, sorrindo.
- Derramou vosso vinho, Robert. Permita-me que lhe traga
um novo cálice.
Sansa sobressaltou-se quando Joffrey pousou a mão em seu
braço.
- Está ficando tarde - disse o príncipe, Tinha uma expressão
estranha no rosto, como se não a visse de todo. - Precisa de
escolta na volta ao castelo?
- Não - começou Sansa. Procurou pela Septã Mordane e ficou
surpresa ao vê-la com a cabeça pousada na mesa, soltando
roncos suaves e dignos. - Quero dizer... sim, muito obrigada,
seria muito gentil de sua parte. Eu estou cansada e o caminho
é tão escuro. Ficaria grata por alguma proteção.
Joffrey gritou:
- Cão!
Sandor Clegane pareceu materializar-se dentro da noite, tão
rápido foi seu surgimento. Tinha trocado a armadura por
uma túnica de lã vermelha com uma cabeça de cão em couro
cosida na frente. A luz dos archotes fazia com que seu rosto
queimado brilhasse num tom vermelho sem vida.
- Sim, Vossa Graça?
- Leve minha prometida de volta para o castelo e assegure-se
de que nenhum mal caia sobre ela - o príncipe disse-lhe
bruscamente. E sem mesmo uma palavra de despedida
Joffrey afastou-se, deixando-a ali.
Sansa podia sentir que o Cão de Caça a observava.
- A senhora esperava que Joff a levaria em pessoa? - ele riu.
Tinha um riso que era como o rosnar de cães de luta. - Há
pouca chance de isso acontecer - colocou-a em pé, sem admitir
resistência. - Anda, não é a única que precisa dormir. Bebi
demais e posso ter de matar meu irmão amanhã - e riu
novamente.
De súbito aterrorizada, Sansa puxou o ombro de Septã
Mordane, esperando acordá-la, mas a mulher limitou-se a
ressonar mais alto. Rei Robert tinha se afastado aos tropeções
e metade dos bancos estava subitamente vazia, O festim
tinha terminado, e o belo sonho terminara com ele.
O Cão de Caça apanhou um archote para iluminar o caminho.
Sansa o seguiu de perto. O chão era rochoso e irregular, e a
luz tremeluzente fazia com que parecesse mudar e mover-se
sob seus pés. Manteve os olhos baixos, verificando onde
punha os pés. Caminharam por entre os pavilhões, cada um
com seu estandarte e sua armadura pendurada à porta, com o
silêncio ficando mais pesado a cada passo. Sansa não
suportava olhá-lo, assustava-a demais, mas tinha sido
educada com todas as regras da cortesia. Disse a si mesma que
uma verdadeira senhora não repararia em seu rosto.
- Hoje o senhor montou galantemente, Sor Sandor - obrigou-
se a dizer.
Sandor Clegane rosnou-lhe.
- Poupe-me de seus elogiozinhos vazios, menina... e aos seus
senhores. Não sou nenhum cavaleiro. Escarro neles e nos seus
juramentos. Meu irmão é um cavaleiro. Você o viu montar
hoje?
- Sim - sussurrou Sansa, tremendo. - Ele foi...
- Galante? - terminou Cão de Caça.
Sansa compreendeu que o homem zombava dela.
- Ninguém conseguiu resistir a ele - conseguiu dizer, por fim,
orgulhosa de si própria. Não era mentira.
Sandor Clegane parou de súbito no meio de um descampado
escuro e vazio. Ela não teve escolha a não ser parar ao seu
lado.
- Uma septã qualquer a treinou bem. É como um daqueles
pássaros das Ilhas do Verão, não é? Um passarinho bonito e
falante que repete todas as palavrinhas bonitas que lhe
ensinaram a recitar.
- Isso não é amável - Sansa sentia o coração palpitando no
peito. - Está